A Origem do Vinho do Porto Vintage



   
 

Novembro-Fevereiro
Durante o inverno, após a queda da última folha e quando os vinhos jovens começam o seu lento processo de amadurecimento, as vinhas têm um merecido descanso. No entanto, os produtores têm tudo menos descanso. Todas as videiras devem ser podadas para estarem prontas para a próxima vindima. Na maioria dos casos, esta tarefa é feita à mão. É uma tarefa longa e árdua que pode durar todo o inverno, e é também uma tarefa fria uma vez que o Douro pode ser desolador e húmido e o solo de xisto escorregadio. Um bom podador tratará individualmente cada videira, e podará de forma diferente consoante a videira se encontre cansada ou vigorosa, persuadindo-a a produzir apenas o número certo de cachos no próximo verão.
  
 
Meados de Março
À medida que o sol da primavera se faz sentir e que a temperatura média diária começa a subir, as vinhas e a sua seiva despertam. Este é o primeiro sinal do fim da dormência das videiras e do início do ciclo de crescimento. Um pouco mais tarde, os gomos vão desenvolver-se passando as escamas duras que os protegeram durante o inverno.
 
 
 
Abril-Junho
Este é um momento de crescimento, com o abrolhamento a enverdecer as vinhas. Todo este crescimento deve ser guiado e amarrado a arames com a mão, para garantir que as uvas não fiquem na sombra e para que o vento possa soprar através das videiras, afastando a doença e as pragas. O míldio e o oídio são uma ameaça, embora menos neste clima quente e seco do que em muitas outras regiões. No entanto, o produtor deve estar sempre atento. 
 
A floração começa em Maio, um dos momentos mais tensos para o produtor.
Este é também o momento em que se deve fazer a desbastação das ervas que crescem entre as fileiras das videiras e nos muros dos socalcos. Estas devem ser apenas aparadas. A erva é útil porque protege contra a erosão nestas encostas íngremes, mas não deve competir com as videiras. Quanto mais quente e seca for a primavera, mais cedo se deve começar a cortar a erva. 
 
Normalmente em junho a vinha apresenta-se exuberante e repleta de folhas, assim como ostenta cachos de bagos verdes e duros escondidos entre a folhagem. O produtor deve estar presente nas vinhas todos os dias, monitorizando o estresse e observando os primeiros sinais de doenças ou pragas.
 
Julho-Agosto
O sol irradia calor, sugando a humidade do solo e, talvez, ameaçando as vinhas com a seca; nesta altura uma leve chuvada pode ser bem-vinda, mas muita humidade e precipitação podem trazer a ameaça de podridão.
 
Entretanto, as uvas cresceram até ao tamanho de ervilhas grandes. Em torno da primeira semana de julho começam a mudar de cor: apenas uma pitada de roxo acastanhado em primeiro lugar, que se espalha e se aprofunda. Este é o pintor, a mudança de cor que indica o começo de maturação. No final de julho, as uvas já não vão crescer mais: agora o amadurecimento concentra-se nos açúcares, ácidos, taninos e pigmentos que irão definir os futuros vinhos. 
 
Setembro-Outubro
É final de Setembro e tempo de começar a vindima. Ano após ano, os apanhadores voltam ao trabalho nas vinhas durante o dia e pisam as uvas ao som de um acordeão ao longo da noite. As uvas são ligeiramente esmagadas, e vertidas para os lagares. De pés lavados, os pisadores entram no lagar e pisam ritmicamente para trás e para a frente. É um trabalho duro, com as peles e as gavinhas a escorregar sob os seus pés e com a temperatura do mosto a aquecer à medida que a fermentação começa. O ar está impregnado com o aroma a uvas esmagadas. No preciso momento em que as leveduras transformam cerca de metade do açúcar da uva em álcool, é hora de proceder à fortificação. A aguardente vínica, incolor, neutra e jovem é adicionada – e a fermentação pára, deixando ficar o açúcar não fermentado e uma doçura exuberante no vinho do Porto final.     
 
Fevereiro
O ponto central deixa de ser as adegas vinícolas do Douro para se passar à sala de provas, em Vila Nova de Gaia, com a sua bonita vista para o rio e para a cidade do Porto. Os vinhos jovens devem ser avaliados e o seu estilo julgado: são adequados para um Aged Tawny? Para um LBV? Ou talvez para um Vintage? Estes últimos serão os melhores vinhos da colheita, os que melhor mostram os aromas mais completos, os que apresentando maior coerência com o estilo da casa Croft e maior profundidade e vigor que lhes permita envelhecer por muitos anos em garrafa. Mas não é tarefa fácil. Os vinhos podem ser difíceis e inarticulados nesta fase, com talvez apenas diferenças muito sutis entre eles.
 
Março
Os jovens vinhos do Porto são trazidos da região do Douro até às caves Croft em Vila Nova de Gaia. Antigamente, os vinhos viajavam pelo rio nos tradicionais barcos rabelos. Hoje em dia, são transportados por estrada. Os vinhos que foram selecionados como tendo potencial para vinho do Porto Vintage são então armazenados em tonéis de carvalho onde permanecerão até à primavera do ano seguinte. Nesta fase, nenhuma decisão ainda foi tomada quanto a saber se vão ser engarrafados como vinho do Porto Vintage. Isso só irá acontecer um ano mais tarde, após os vinhos terem resistido ao tradicional teste de "dois invernos na madeira ". 

Início de Março, Um ano depois 
Sucede-se uma outra prova, e todos os vinhos reservados no ano anterior são provados. Alguns não se vão revelar potencial material para vinho do Porto Vintage e serão eliminados do processo de seleção. Aqueles que passam o teste, avançam para a próxima fase - o loteamento. Uma série de lotes serão feitos em pequena escala, na sala de provas. Cada vinho é selecionado pela sua contribuição específica para o lote. Alguns vinhos podem ser escolhidos pelo seu caráter aromático, outros para dotar estrutura ou profundidade . O objectivo em cada lote é combinar os componentes da forma mais harmoniosa possível, de modo a que o resultado seja equilibrado, completo e consistente com o estilo da casa Croft. 
 
Final de Março, Um ano depois
Agora é altura de provar os lotes. O júri de provas prepara e prova tudo às cegas. As provas são muitas vezes "triangulares”, com o mesmo lote incluído duas vezes na mesma série para testar a precisão dos participantes. Cada provador deve atribuir uma pontuação a cada lote e escrever notas detalhadas . No final de cada sessão , o painel reúne-se para discutir os vinhos e determinar quais são os seus lotes preferidos. Se nenhum for considerado satisfatório, os provadores devem voltar à fase de criação de novos lotes ou fazer ajustes aos já apresentados. Através do processo de eliminação, depois de várias sessões de prova, a escolha final fica reduzida a um único lote.      
 
Início de Abril, Um ano depois 
Mas será este lote suficientemente bom? A decisão deve agora ser tomada quanto a saber se o lote escolhido merece uma declaração vintage. Esta é uma das decisões mais importantes na vida e reputação da empresa como produtora de vinho do Porto Vintage e, para tal, depende de uma avaliação precisa. Para um vintage ser declarado, o vinho deve ser de excelente qualidade e possuir a profundidade e o vigor que permitam que continue a melhorar em garrafa ao longo de muitas décadas na cave. Isso significa que este vinho será relativamente austero enquanto jovem, com uma estrutura firme, encorpada e de repleto de aderência tânica. A intensidade e concentração de sabor, que são o traço distintivo de um bom vinho do Porto Vintage, também são necessárias se queremos que o vinho continue a revelar complexas camadas de aroma ao longo de muitos anos.
 
Se for acordado que se justifica declarar, então o lote selecionado será composto nas caves, onde será permitido "casar –se” em grandes tonéis antes de ser engarrafado.
 
Historicamente, a Croft só declarou cerca de três vindimas em dez. A alternativa , se os vinhos são considerados de qualidade do Porto Vintage, mas não vivem tempo suficiente para uma declaração completa, é lançar um vinho do Porto Vintage Single Quinta.
Uma vez que o lote esteja escolhido, o painel considera se este é de qualidade de um Porto Vintage e uma verdadeira expressão do terroir único da Quinta da Roêda. Caso contrário, os vinhos são devolvidos e são usados para o lote, mais provavelmente para um Late Bottled Vintage. 
 
 
 

23 de Abril
O dia 23 de Abril , dia de São Jorge, é uma das datas mais aguardadas do calendário vínico. É a data em que a Croft e muitas outras casas do "primeiro lançamento" de vinho do Porto Vintage anunciam as suas intenções em relação à penúltima colheita. Por exemplo, no dia 23 de abril de 2013, declarou-se como vintage o ano de 2011. A esperança entre os comerciantes de vinho, colecionadores e entusiastas de vinho do Porto Vintage em todo o mundo é que a Croft e outras casas clássicas venham a declarar. Quando todas ou uma esmagadora maioria das casas produtoras de vinho do Porto decidam declarar um vintage,  este anúncio é conhecido como uma declaração geral. Mas nem todas as casas necessariamente declaram os mesmos anos . Considerações estilísticas, a localização geográfica das vinhas de uma casa e os efeitos do clima sobre castas individuais podem significar que uma casa é capaz de fazer um excelente vinho do Porto Vintage num ano, quando noutro não é.  A Croft sempre teve uma visão estritamente individual e independente, avaliando os seus vinhos pelos seus próprios méritos e, por vezes, declarando vintages quando estes não eram declarados pela maioria das outras casas, por exemplo, o vintage de 2009. Se a Croft decidiu não declarar, mas em vez disso engarrafar um vinho do Porto Vintage Quinta da Roêda , um anúncio semelhante é feito para o comércio e imprensa. Se não houver nenhum anúncio, não haverá vinho do Porto Vintage.

Início de Maio
O lote final teve a possibilidade de descansar e de se harmonizar, e agora chegou a hora de mostrá-los ao mundo. As provas são realizadas em todos os principais mercados para o comércio, consumidores e imprensa. No caso de um ano vintage, a maior parte do vinho é vendido por altura da declaração.

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